Intervenção ou Intromissão?

“Vejam só que absurdo, esse presidente dos Estados Unidos, Trump, taxar o Brasil. Ele tem que parar de se intrometer nas coisas aqui e se ocupar com o país dele”, disse aquele homem franzino, sentado no banco da rodoviária. Concordei mentalmente, já que não fazia parte da conversa e o desconhecia, assim como as três mulheres com quem ele conversava.

Naquela manhã fria e agradável, o homem franzino, calmo e bem disposto, demonstrava que era informado e atualizado e repassava as últimas notícias sobre as relações comerciais entre os Estados Unidos e o mundo. “Um absurdo” seria a frase que resumiria todo o noticiário da semana: impresso, visualizado, ouvido, curtido e compartilhado. Quem não está preocupado ou zangado está trocando memes, pois esse é o nosso jeitinho de expressarmos o nosso orgulho BR.

Como o virtual e o real nada mais são do que a extensão um do outro, há sempre espaço para a manifestação do contraditório, e foi o que aconteceu naquela manhã fria. Sentado no mesmo banco em que estava o homem franzino, porém de costas, havia um taxista que tinha chegado há uns dez minutos. Distraía-se olhando o pouco movimento que a manhã lhe proporcionava. Mas quando percebeu que bem às suas costas o assunto era política — Brasil, Estados Unidos, Trump e Lula —, o taxista virou-se no ímpeto, como um peão no primeiro giro. E esbravejou: “O Lula tem que ser preso de novo. Ele está acabando com o país. E quem manda é aquele ministro do STF…”, erguendo-se corpulento com o dedo no ar.

Achei que brigaria e chamaria o franzino para as vias de fato. Por sorte, este em nada parecia com Lula e tampouco com o tal ministro; se não, coitado, levaria algum golpe certeiro. O taxista, após erguer o dedo comprido, juntou-o com os demais formando com as duas mãos duas conchas; bateu contra a parte traseira da calça jeans e foi em direção ao táxi.

Se pretendia descansar um pouco naquele banco, foi infeliz. Entrou no carro e saiu sem olhar para ninguém. Em contrapartida, o homem franzino estava perplexo. Ele, que acompanhara a saída do taxista em silêncio, permaneceu estupefato por alguns segundos. As mulheres também. Eu permaneci.

Quando o homem franzino, com toda a sua franzidez, retomou a si mesmo, começou a dizer: “Vocês viram isso? A gente aqui conversando… E ele chegou, não falou nem um bom dia… Eu não gosto de falta de educação… Sou educado e respeito todo mundo…” As mulheres concordaram. Até eu, em meu íntimo.

Era um momento de apaziguar, retomar o curso ou iniciar outro mais ameno. Mas o homem franzino repetia. Com o acréscimo ou decréscimo de uma ou duas palavras, ele voltaria a repetir. Foram mais uma, duas, três… sem cessar. Tornara-se previsível. Era o homem franzino repetitivo. Incansável. As mulheres que antes falavam agora só balbuciavam; na certa estavam cansadas. Eu me prontificara a fungar; assim sinalizaria também o início discreto do meu cansaço.

“Vocês viram isso?…” Eis mais uma repetição que precedia e antecipava outras. O tédio tomava conta do ambiente como o raio solar que penetra numa sala à tarde. Mas ainda era de manhã; umas sete e meia. E toda essa ruminância se prolongava porque um homem surpreso não conseguiu reagir a tempo à intromissão virulenta de outro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *