De frente com Marisa

Conheço Marisa há uns 5 anos. Um quinquênio de conversas fiadas e afiadas. Sempre nos esbarramos quando menos esperamos. Tenho reparado que, nos últimos onze meses, ela começou a ser repetitiva. São questões atrasadas: “O síndico precisa morar no condomínio para ser síndico?” ou “O que a fulana, como subsíndica, faz, já que não se vê nenhuma ação concreta?”. Já respondi a essas perguntas todas as vezes anteriores e agora, quando digo: “Fulana é um enfeite”, demonstro, inconscientemente, sinais de cansaço. 

Outras questões atrasadas, como: “Pra mim, quando o X postou no grupo, o que fez…” ou “A vizinha da frente viu quando ele chegou trêbado com uma mulher desconhecida…” me servem de respiro. Já sei até pela tonalidade quando chegam a hora dessas frases. Aproveito para ajeitar o meu relógio, alisar seu pequeno e adorável cão (que sempre vem me cumprimentar) e, o que mais gosto, observar. 

Marisa é visualmente desleixada. Nestes cinco anos, só a vi uma única vez arrumada. Foi num sábado à tarde. Estava lavando o carro quando ela atravessou a garagem. Vinha da cabeleireira com os cabelos quimicamente aloirados e escovados e um vestido longo vermelho. Apressava-se, pois tinha um compromisso. Não fiquei sabendo. Tive tempo somente para dizer: “Oh, a dama de vermelho”. Ela riu e disse: “Estou com pressa, me desculpe, outra hora conversamos”. Sim, deve ter sido umas duas semanas depois; nada sobre o vestido. Ainda bem, senão teria que mentir caso pedisse a minha opinião. E não tenho certeza se seria convincente. Aquele figurino e cabelos me lembravam uma Marilyn Monroe com 55 anos. Era uma perspectiva amadora. 

Depois disso e até mesmo antes, sempre foi a mesma coisa: calças jeans folgadas e desgastadas, shorts jeans de tamanho e numeração traiçoeira (que lhe proporcionavam um aumento de peso virtual), blusinhas de alças finas (que aumentavam e despencavam seus seios), tamancos (saudosos de cores) ou tênis (esportivos demais). Fora o conflito de cores! Se toda roupa envia uma mensagem, as composições de Marisa pedem socorro. Nenhuma peça conversa com a outra; é uma desarmonia só. 

Na semana passada, ela me enviou uma mensagem no WhatsApp. Queria me pagar um dinheiro que eu tinha emprestado. Fui ao seu apartamento buscar. Avisei com antecedência como sinal de bom senso. Quando cheguei, ela logo apareceu na porta. Estava vestida de baby-doll azul claro. A visão causou-me desconforto; sensação contrária à proposta do conjunto. Ela não se intimidou; a tarefa foi delegada a mim. 

Não satisfeita em me pagar, começou a tagarelar. Iniciou os trabalhos de nossas conversas fiadas e afiadas com as fofocas quentes dos últimos dias; até esqueci como ela estava vestida! Fofoca é assim: você lembra uma coisa e esquece-se de outra. Pelos meus cálculos ligeiros (fadados ao erro), o papo esticou por duas horas e, durante esse tempo, não contabilizei o número de ajeitadas que ela deu na alça direita do baby-doll com a mão esquerda. Isso parecia um desconforto; afinal, no lugar dela é o que eu sentiria! 

O baby-doll a traía; ao invés de promover conforto e sensualidade, denunciava-lhe o quanto apreciava as cervejas que regavam todos os seus fins de semana, sempre bem acompanhada de Lady Gaga, Rihanna, Justin Timberlake e vários outros do pop. 

Depois que recebi meu dinheiro, desci… Desci e lembrei! Lembrei de uma vez em que a vi naqueles trajes! Não estou certa se era o mesmo ou da mesma cor; certo é que era do mesmo modelo! E não foi no andar dela; menos ainda no seu apartamento! Foi no térreo, na recepção! Ela passava enquanto eu conversava com dois vizinhos… Veja bem: vizinhos homens! Nós três a vimos atravessar a recepção de baby-doll; ninguém se atreveu a comentar; era o que cabia. 

Mas teve um fato que ocorreu na semana passada: alguém interfonou lá do portão e outro alguém do terceiro andar desceu. O primeiro eu vi; era um homem desconhecido — baixo, gordo e claro — tinha aspecto de prestador de serviços já que trazia junto ao corpo uma bolsa pequena daquelas de viagem… E quem desceu? Alguém com chinelos que batiam na sola do calcanhar — um som que ainda compreendo porque é metálico! O compasso do ritmo é dois por quatro já que quem o calça tem pressa! 

Não demorou muito e um burburinho semelhante ao de abelhas ressoou… Houve um encontro entre quem chegou e quem foi recepcionar! Termino meu café e me prontifico a descer… Bisbilhotar é uma coincidência!

Os primeiros passos — a cada degrau abaixo — me dão uma ideia de que estou prestes a encontrar o ninho do zumbido… No último degrau deparei-me enfim com as duas criaturas — em vez de zangão e abelha — era o prestador de serviço e Marisa minha vizinha!  Ela explicava de modo vago o que ele deveria fazer já que o serviço não era para ela mas sim para outra vizinha que naquele momento estava ausente! Ele mantinha-se atento. Olhava tudo e quando mirava nela fitava somente o olhar. Já Marisa — sempre simpática e educada — era a permanência dos últimos tempos! Ela vestia mais uma vez o baby-doll da semana passada e novamente a tal da alça direita pendia… Era um descabimento! 

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