Toda apatia será julgada

Se ele não tivesse arrastado tanto os pés, eu não teria percebido a sua chegada. Juro. Sentou-se no banco de concreto gelado, olhou-me e não me cumprimentou. Achei tão feio. Sou de reparar nessas coisas, pois, desde que me entendo por gente, vejo nos idosos o símbolo da sabedoria. Cada ruga, ou mesmo fio de cabelo branco, é uma história, um marco, acertos e erros, a compreensão das coisas e dos seres. Quando não reconheço esses sinais, decepciono-me.

Ele emitiu um leve gemido assim que sentou e se recostou naquele cimento grosso e gelado. Não sei se foi pelo cansaço de tanto arrastar os pés ou pelo choque da temperatura entre o corpo e o cimento. Fiquei em dúvida, permaneci, mas sem encarar para evitar qualquer mal-entendido. Sabe como são essas coisas, nada mais incomoda um ser do que outro lhe encarando. Isso acontece também com os animais: a encarada é sempre sinal de afronta.

Era domingo. Passava das 14 horas e, como em qualquer lugar, a tarde era lenta. E ali, em Iconha, a tarde era sonolenta. Tinha acabado de almoçar e sentia o meu corpo agradecer, pois o almoço espantara a minha dor de cabeça, assim como a lentidão e a fraqueza. Se eu me sentasse, acabaria cochilando, coisa que deveria evitar, mesmo esperando o ônibus no interior. Preferi ficar em pé e recostei minha mochila no banco de cimento frio, pouco distante daquele homem.

Do meu lado esquerdo havia outro banco de madeira, ocupado por um casal de meia-idade apático, que esperava o ônibus. O velho apático estava à minha direita. Eu estava no centro. Não protagonizava. Observava. Era como uma telespectadora cansada em frente à TV à noite, com todo o cansaço diário acumulado. Queria distração, um pouco ao menos. O que se movia devagar à minha frente, principalmente do outro lado da rua, chamava a minha atenção.

No terminal rodoviário, havia muitas pessoas. É de se estranhar por se tratar de domingo, mas eram todas passageiras que esperavam o ônibus para Vitória. Sem esforço, acertei: era previsível. Estranhei quando olhei para a rua lateral do terminal. Havia tanto barulho. Ali, era um centro de convivência da terceira idade, e esses lugares costumam ser mais tranquilos. Observei melhor para ver o que conseguia captar. Bastaram poucos minutos. Era um tipo de culto, sim, um culto protestante com direito a microfone alto e abafado. Havia poucas pausas. Na maior parte do tempo, uma mulher falava. Não sei se não equalizaram o microfone ou se ela o usava colado à boca, mas o que saía era um grunhido, um latido rouco de rottweiler velho e ininteligível. Aquilo durava mais de uma hora e parecia ter começado por volta do meio-dia. Foi o que deu para entender de um homem que tinha sentado para conversar um pouco com o velho apático. Foi o que pareceu. Todo aquele som abafado se misturava com os barulhos dos carros e motos que, mesmo em pouca quantidade, passavam com vontade e força. Era alguma coisa diferente de pressa.

A tarde seguia lenta, cada um se distraía. O casal mantinha conversas interrompidas pelas telas dos celulares. Eu permanecia em pé ao lado do banco de cimento gelado para evitar cochilos; e o velho apático, bom, esse se sentava, levantava-se, conversava com outros velhos conhecidos que se aproximavam. Mas a maior parte do tempo ficava sozinho, à espera, sabe-se lá de quê.

Como estávamos em uma calçada, éramos facilmente atravessados por diferentes pessoas. É claro que, se fosse dia de semana, a quantidade seria maior e, se chovesse, pior. Haveria pessoas com sombrinhas, cujas pontas poderiam ameaçar os olhos e, na melhor das hipóteses, ser molhado com gotas grossas de água canalizadas por elas. Mas aquela tarde de domingo era seca e ensolarada, e a menor quantidade de gente era significativa.

Quando o velho apático se distraiu, veio de longe um menino em uma bicicleta. Eu vi. Era um menino veloz e hábil. Se fosse um homem em uma moto, seria ainda mais habilidoso e ágil, pois iria zigue-zaguear de dar vertigem a quem assistisse.

O menino veio tão veloz sobre a calçada que não deu tempo do velho apático sair de sua distração. O menino passou tão rente ao velho que senti uma brisa moleque. O velho se assustou e, quando se recobrou, começou a resmungar xingamentos ao menino que já se tornara pequeno por estar longe. Nada adiantava. O velho apático, com toda a sua apatia, mantinha-se sentado no banco de cimento duro e gelado, grudado. O banco era a extensão do velho.

A tarde caminhava sem pressa. Tudo estava tão calmo que um pardal pousou na calçada bem à minha frente. Ele dava seus pulinhos para a esquerda e para a direita, olhando de soslaio para mim. Eu o contemplava. Ele percebeu e se aproximou um pouco, depois se afastou. Será que queria brincar comigo? Permaneci imóvel para não assustá-lo. Queria observá-lo mais. É bonito de ver. Sua plumagem, bico, patinhas, o corpinho parrudo (com mais penas do que carne). Dá vontade de pegá-lo, estender a mão como uma retroescavadeira, erguê-lo até a altura dos meus olhos e observá-lo de perto, ver o que não sei dele, admirar-me com alguma novidade, aprender com ele, saber dele. São possibilidades distantes.

Imito o pardal e, de soslaio, percebo que o velho apático não o viu. Mas a mulher da esquerda o contemplou. O pardal tinha remelexo e graça. Num repente, o velho apático o viu e, mesmo não estando perto, pois o bichinho estava mais próximo a mim, bateu o pé no chão com força e espantou a ave serena num susto. O bichinho desapareceu em segundos enquanto o velho apático mantinha sua cara apática. Olhei-o e não disse nada. Olhei a mulher que, como eu, sentiu o momento e preferiu o silêncio. Com certeza pensávamos a mesma coisa: “que velho sem graça”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *